Como é ruim a sensação de chegar em casa e não ter, como sempre teve, uma amiga pra te receber abanando o rabo. Amiga essa que ficava feliz só em me ver, e a recíproca era verdadeira.
Era impressionante como um olhar falava muito mais do que qualquer quantidade de palavras. Era impressionante como um abano, ou não, de rabo denunciava como estava o humor dessa amiga. Inevitavelmente, sempre estava de bom humor. Fazendo chuva ou sol.
É estranho também não escutar os passos pesados pela garagem e quintal. Como quem sempre estava em estado de vigilância, essa amiga percorria toda a extensão da casa, com calma, minuciosamente, pra depois vir deitar onde estivéssemos. Não pedia nada, apenas queria estar onde as pessoas da casa estivessem, vigiando, guardando.
Vai ser estranho não ter com quer brigar pela mangueira na hora de lavar o quintal e garagem. Vai ser estranho não ter em quem dar banho todo sábado com essa mesma mangueira, motivo de altas disputas no melhor estilo cabo de guerra!
Vai ser estranho não ter com quem contar pra espantar vagabundo dormindo na porta da minha casa. Vai ser duro acostumar com a falta de alguém pulando no portão, acordando a vizinhança toda só porque passaram na minha calçada. Ou, pelo que parecia, na calçada dela!
Vai ser muito estranho não ter com quem ficar bravo pra sair do caminho enquanto tento guardar as compras do mês. Incoerentemente, vai ser muito estranho não ter com quem ficar bravo porque está subindo no carro pra fuçar nas compras que ainda estão no porta malas...
Não sei se vou acostumar a cozinhar, fritar ou mesmo pegar um ovo na geladeira sem ter ninguém pra tentar devora-lo, a qualquer custo. Com certeza não vou ter a mesma emoção de ter que fazer um omelete com um olho na frigideira e outro no "cachorro"!
Vai ser estranha a sensação de não ter com quem confidenciar angústias, alegrias e até mesmo algum segredo bobo, com a certeza de que o que ali fosse falado, ali ficaria. Não ter um dorso ou uma cabeçona amiga pra se apoiar sentado no chão também vai ser difícil de me acostumar.
Mas acho que a pior sensação que vou sentir é de ter a certeza que a mais sincera amizade que tive não vai estar aqui presente pra compartilhar minhas alegrias, tristezas, dor ou satisfação. A única sensação que tenho certeza que vou ter e não vai ser estranha é a de saudade. Obrigado por me fazer companhia nesses nove indescritíveis anos e proporcionar tantas boas emoções, Pandora!

